HGP realiza procedimento inédito com substância experimental em paciente com paraplegia
Um procedimento inédito marcou a saúde pública do Tocantins no dia 2 de abril de 2026. No Hospital Geral de Palmas (HGP), a jovem Sindy Mirela Santos Silva, de 21 anos, tornou-se a primeira paciente do estado a receber a aplicação da polilaminina, substância em fase experimental estudada para auxiliar na recuperação de lesões na medula espinhal.
A trajetória até o procedimento começou em janeiro deste ano, após um grave acidente de trânsito ocorrido entre os municípios de Novo Alegre e Combinado, na região sudeste do estado. A jovem sofreu uma lesão medular que resultou em paraplegia. Inicialmente atendida no Hospital Regional de Porto Nacional, ela foi transferida para o HGP, onde passou por cirurgias, incluindo a estabilização da coluna, e iniciou o processo de reabilitação.
Foi durante esse acompanhamento que surgiu a possibilidade de participação no estudo experimental com a polilaminina, indicada para pacientes que ainda se encontram na fase inicial da lesão.
O que é a polilaminina
A polilaminina é uma substância produzida em laboratório a partir da laminina, proteína presente no organismo humano, com atuação no desenvolvimento e organização celular, especialmente no sistema nervoso. A versão sintética busca reproduzir essa estrutura de forma estável, com o objetivo de contribuir para a reparação de danos causados por lesões na medula.
A pesquisa é conduzida pela cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e ainda está em fase de estudos, com resultados preliminares considerados promissores.
Segundo o médico pesquisador Arthur Luiz Freitas Forte, integrante da equipe responsável pelo estudo, a proposta do tratamento não é a cura, mas a possibilidade de melhora na qualidade de vida. “A substância pode atuar na regeneração de neurônios lesionados e também proteger células ainda viáveis, o que pode resultar em ganhos funcionais”, explicou.
Ele reforça que, por se tratar de um tratamento experimental, o acesso é restrito e depende do cumprimento de critérios clínicos específicos, além do consentimento do paciente.
Procedimento realizado no HGP
A aplicação foi realizada no setor de hemodinâmica do HGP, com o uso de tecnologia de imagem para garantir precisão. O procedimento foi conduzido por uma equipe especializada, com acompanhamento de diferentes profissionais.
De acordo com o neurocirurgião Luiz Felipe Lobo Ferreira, responsável pela aplicação, a técnica é minimamente invasiva. “A paciente é posicionada de lado, com sedação leve, e a substância é aplicada diretamente na região da lesão por meio de uma injeção guiada por imagem”, detalhou.
O neurorradiologista intervencionista e neurocirurgião Vinícius Bessa destacou que o uso de raio-X permite direcionar a aplicação com precisão, aumentando a segurança do procedimento.
O secretário de Estado da Saúde, Carlos Felinto, ressaltou que a realização do procedimento dentro da rede pública demonstra a capacidade do sistema em incorporar novas tecnologias. Segundo ele, o avanço está ligado à estrutura disponível e ao trabalho integrado das equipes.
Acompanhamento e reabilitação
Desde a internação, Sindy vem sendo acompanhada por uma equipe multiprofissional, formada por fisioterapeutas, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros especialistas. O processo de reabilitação inclui cuidados intensivos, especialmente nas fases iniciais, quando o paciente ainda não pode realizar movimentos mais amplos.
A fisioterapeuta Wellen Cristine explicou que o quadro inicial exigiu atenção respiratória antes da evolução para a reabilitação motora. Segundo ela, o tratamento de lesões medulares é gradual e envolve aspectos físicos e emocionais.
A continuidade do acompanhamento será essencial para a evolução clínica da paciente, que deverá manter o processo de reabilitação após a alta hospitalar.
Expectativa da família e da paciente
A inclusão no estudo trouxe novas perspectivas para a família. A mãe de Sindy, Ledjane Bezerra da Silva, acompanhou todo o processo em Palmas e destacou a importância do acesso ao tratamento.
A própria paciente afirmou que o procedimento representa uma oportunidade e pode abrir caminhos para outras pessoas na mesma condição.
Próximos passos
Apesar do avanço, especialistas reforçam que o tratamento não encerra o processo de recuperação. A paciente seguirá em acompanhamento para avaliar possíveis resultados ao longo do tempo.
O caso representa um marco para a saúde pública do Tocantins, ao evidenciar a integração entre pesquisa científica, atendimento hospitalar e reabilitação dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

