Opinião | O bem sempre, o mal nunca, a ninguém
A política costuma ensinar que ninguém vence sozinho e ninguém permanece forte apenas pelo poder que ocupa. Mandatos são concedidos pelo voto popular, mas só permanecem vivos quando são alimentados pelo diálogo, pela lealdade e pela capacidade de construir pontes. Quando isso se perde, o tempo cobra a conta.
A desistência do senador Irajá da disputa pela reeleição ao Senado parece ser o desfecho de uma sequência de decisões políticas que, ao longo dos últimos anos, enfraqueceram sua própria base.
Ainda no início de sua trajetória recente, Irajá lançou o ex-juiz Marlon Reis como candidato, em um projeto que despertava expectativa de renovação política. Antes mesmo do fim da campanha, porém, a parceria terminou em rompimento. Foi o primeiro grande sinal de que as relações políticas do senador começavam a se desgastar.
Depois vieram os conflitos públicos com o ex-governador Mauro Carlesse. Em seguida, uma aproximação com o governador Wanderlei Barbosa. A relação parecia sólida, mas também não resistiu.
Talvez o episódio mais marcante tenha ocorrido em 2022. Kátia Abreu tinha um caminho praticamente consolidado para disputar a reeleição ao Senado com o apoio do Palácio Araguaia. Wanderlei Barbosa fazia discursos públicos de reconhecimento pela parceria construída ao longo dos anos. Mas a decisão de lançar a pré-candidatura de Irajá ao Governo mudou completamente o cenário.
A escolha rompeu a aliança com o grupo governista. No fim, Kátia acabou sem um palanque competitivo para disputar o Senado, enquanto a então deputada federal Professora Dorinha ocupou o espaço deixado na base do governo, fortaleceu sua candidatura e venceu a eleição. Na prática, a estratégia política acabou custando caro ao grupo liderado por Irajá.
Mais recentemente, o senador voltou a formar uma aliança, desta vez com Laurez Moreira. Mas quem acompanha os bastidores da política tocantinense percebeu que os sinais de desgaste surgiram rapidamente. Após a aproximação do PT com Laurez, Irajá lançou Ivanete Lima como pré-candidata ao Senado. Nos bastidores, muitos interpretaram o movimento como uma tentativa de enfraquecer uma eventual candidatura de Paulo Mourão, visto como um nome que poderia ameaçar seu projeto de reeleição.
A partir daí, vieram as divergências públicas, notas oficiais, declarações e um ambiente de confronto dentro do próprio PSD. O resultado foi conhecido nesta quinta-feira: Irajá anunciou que não disputará a reeleição ao Senado.
Independentemente das versões apresentadas por cada grupo político, uma lição fica evidente. A política exige mais do que articulação eleitoral. Exige inteligência emocional, capacidade de ouvir, maturidade para administrar diferenças e habilidade para manter aliados ao lado.
Quem faz da política um caminho de constantes rompimentos acaba, inevitavelmente, caminhando sozinho.
Há uma frase atribuída a São Luís Orione que diz: "O bem sempre, o mal nunca." Ela lembra que toda atitude produz consequências. Na política, isso também acontece. Quem planta diálogo costuma colher alianças. Quem planta conflitos corre o risco de colher isolamento.
A desistência de Irajá não representa apenas a saída de um candidato da disputa ao Senado. Ela simboliza como escolhas políticas acumuladas ao longo dos anos podem alterar completamente uma trajetória que, em outro momento, parecia promissora.
No fim das contas, a política continua ensinando uma das lições mais antigas da vida: ninguém colhe aquilo que não plantou.

